Agora de regresso, muitas vezes sou confrontado por amigos e conhecidos pela habitual pergunta "como correu" logo seguida do "porquê". Se no início da minha viagem a resposta ao "porquê" era um "porque não", agora, passados dois meses de viagem e uma semana de regresso, penso-me e penso na viagem que fiz. E na resposta sai algo do género, "se a vida é uma viagem, a viagem será a vida?" Pelo menos, compreenderemos melhor esta coisa de viver, viajando? Sei que tive muito tempo, por viajar sozinho e numa moto, para pensar na vida, naquilo que a minha vida se compõe. Tudo o que vivi nesta viagem, sentimentos, experiências, alegrias, medos, frustações, conquistas, vivi-o num estado alternativo de existência, porque longe do que me era seguro. Não será também isso viver? Existir longe do que nos é naturalmente familiar? Desde muito novo, desde que me penso, que me sinto um alienigena nesta existência e só muito recentemente consegui começar a compreender o meu papel em toda esta peça a que chamamos de civilização. Todos representamos um papel que aceitamos melhor ou pior. Uns são personagens que chutam a bola e afectam milhões, outros médicos que descobrem curas para doenças terminais, outros ainda constroem naves para viajar no espaço e outros ganham a vida na política ou no sistema financeiro ou vendendo droga ou armas ou seres humanos. Uns aprimoram as suas apetências em artes, em ciências, em filosofias, outros ainda limitam-se a gerir o sopro de vida que lhes inflama alma de uma maneira inconsciente mas prática. Durante muito tempo questionei o meu papel nesta vida, algo que não compreendia muito bem porque me sentia diferente e incapaz de igualar. Fiz muita coisa na vida, música, reiki, fotografia, teatro, escrevi livros, gravei discos, leccionei informática, meditação e técnicas de relaxamento, tentei ser político, jogador de futebol, escriturário... fui motard, fotografo, viajante! Provavelmente ainda virei a ser algumas coisas mais... A mais comum das críticas que me fazem, é a de que não sei o que quero. Ainda desta viagem dizem que queria ir à China e depois me decidi pelo continente Europeu. Relativamente a esta última, foi uma escolha forçada porque não tinha o dinheiro suficiente para pagar a garantia bancária de 15 mil euros exigida pelo ACP nem as taxas exigidas pela China (estas num valor de 10 mil euros). O meu objectivo pessoal foi alcançado: viajar sozinho durante dois meses e numa moto. Porquê? Porque busco, porque me busco. Porque sou um buscador, um simples buscador. A vida é simples, a busca é simples. Para entender a vida é necessário ser simples, buscar simples. Não sou engenheiro nem primeiro ministro, não sou músico nem fotografo, não sou escritor nem mestre reiki, não sou mário, nem sou humano. Sou uma alma que busca. Buscar um sentido. Um sentido para existir, para experienciar, para Ser. Se encontrei esse sentido, esses sentidos? Claro que sim! Todos os dias encontro um novo, e de todos esses vou construindo o meu sentido, o meu sentir, o meu Ser. Daí que viajar, ser viajante, não é fazer férias ou ser turista. É ser uno com a vida, deixar fluir em nós o Universo, a essência de Ser. Quando nos entregamos de corpo e alma a uma busca, deixamos de ser homens e tornamo-nos imortais. Somos Cidadãos do Mundo, Seres Universais! Porque nos entregamos a uma busca, a uma epopeia, a uma quimera. E é uma entrega que não conhece limites, que não tem condições ou condicionantes. Confias e segues o teu instinto. Fazes as escolhas e sofres as consequências - boas ou más, mas sempre instrutivas. No fundo, é para isso que aqui andas, para fazeres as escolhas e entenderes as consequências. Tornas-te uma alma mais consciente de si próprias e das outras. Mais consciente do seu caminho, da sua origem e do seu destino. Mais alma.